Autoridades atribuem alta de 62% nos casos constatada pela CGU à ampliação dos canais de atendimento, a políticas preventivas e a avanços na conscientização de servidores
O governo federal registrou 7,2 mil denúncias de assédio moral em 2025, média de 20 casos por dia, em 301 órgãos públicos, segundo dados da Controladoria-Geral da União. Os números representam uma alta de 62% em relação a 2024 (4.462) e sete vezes mais do que o total registrado em 2020 (1.029). Segundo a CGU, esse aumento reflete principalmente a ampliação dos canais de denúncia, ações de conscientização e políticas institucionais de prevenção, que têm contribuído para dar visibilidade a um problema com histórico de subnotificação.
As manifestações foram registradas na plataforma Fala.BR, mas ainda não representam casos comprovados já que as denúncias dependem de apuração técnica posterior, conforme esclarece a CGU.
O levantamento mostra que a maior concentração de registros foi na CGU, com 676 denúncias em 2025, seguida pelo Ministério do Trabalho (325) e pelo Ministério da Saúde (198). Fiocruz e Eletronuclear também aparecem entre os órgãos com maior número de relatos, enquanto o restante das denúncias se distribui de forma pulverizada entre centenas de órgãos federais. Além das denúncias formalizadas, cerca de 1,4 mil manifestações não avançaram na tramitação inicial por falta de informações mínimas para abertura de apuração.
O juiz Felipe Vianna, 1º Diretor Cultural da AMATRA1, que mediou o painel sobre assédio moral na 34ª edição do EMAT, relacionou o aumento das denúncias à mudança de postura institucional e cultural. Para o magistrado, “o evidente aumento das denúncias de assédio moral no serviço público federal tende a revelar um crescimento dos registros, mas não necessariamente o aumento da prática que já é sistemática em instituições”.
Na avaliação do magistrado, o cenário atual expõe uma transformação no modo como o tema é tratado dentro das organizações. “Isso revela uma histórica subnotificação desse tipo de conduta que agora vem sendo substituída pelas respostas dos poderes investidos”, afirmou, ao associar o crescimento das queixas à maior conscientização dos servidores e à ampliação dos canais formais de denúncias.
A Controladoria também atribui a elevação das notificações à expansão do conhecimento sobre o tema, ao fortalecimento dos canais institucionais e à adoção de políticas públicas específicas. Em 2024, o governo instituiu o Programa Federal de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação, que passou a orientar ações de comunicação, capacitação e tratamento dos casos relatados. Somente no segundo semestre de 2025, o órgão promoveu cerca de 20 treinamentos para servidores do Poder Executivo federal.
Felipe Vianna também destacou a disseminação de políticas de integridade e compliance no setor público e privado como elemento central para o enfrentamento do problema. Segundo ele, a adoção dessas medidas desloca o foco para uma atuação preventiva diante de um fenômeno que classificou como crônico nas corporações.
No âmbito judicial, ele apontou a atuação da Justiça do Trabalho como parte importante desse processo de mudança. “Na Justiça do Trabalho, já temos percorrido um caminho pedagógico e punitivo de práticas de assédio, tanto em demandas individuais quanto em coletivas”, disse, ao vincular esse percurso ao papel constitucional da instituição na promoção da justiça social e na consolidação de ambientes laborais mais respeitosos.
A CGU reforça que os dados divulgados correspondem a manifestações registradas em ouvidorias e não representam casos já confirmados. Todas as denúncias passam por análise de admissibilidade e, quando identificados indícios suficientes, são encaminhadas às unidades competentes para apuração, com garantia de sigilo e proteção ao denunciante.
Com informações do Estadão.
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