05 de outubro de 2020 . 16:01

Debate da AMATRA1 sobre filme ‘Culpa’ inspira artigo do desembargador Couce

Inspirado pela live cultural da AMATRA1 sobre o filme dinamarquês “Culpa”, o desembargador do TRT-17 (ES) Cláudio Armando Couce de Menezes escreveu o artigo jurídico “Culpa. Somos todos culpados?”. Inédito, o texto publicado nesta segunda-feira (5), no site da AMATRA1, aprofunda questões trazidas pelo filme, debatedores e público. Couce participou da live, em 18 de setembro, com o desembargador aposentado e professor da PUC-Minas Márcio Túlio Viana e com o professor da UFPA Ricardo Araujo Dib Taxi.

Leia o artigo na íntegra:  

Culpa. Somos todos culpados?

1 - O FILME 

Em 18/09/2020, participei de um prazeroso encontro com os renomados MÁRCIO TÚLIO VIANA (Prof. Puc-MG e Desembargador aposentado) e RICARDO ARAÚJO DIB TAXI (Prof. da UFPA da cadeira de Hermenêutica Jurídica e coordenador da área de pesquisas sobre interpretação e narrativas), sob os auspícios da AMATRA 1. 

O evento, um cine-debate na modalidade telepresencial (“live”) (1), tratou sobre o filme dinamarquês “Culpa”. Instigado pelas questões trazidas pela película, debatedores e público, resolvi tecer rápidas linhas sobre a obra e os pontos possíveis de indagação e dúvida, sem a pretensão de fechar e encerrar qualquer discussão sobre os mais diversos temas ali abordados. 

1.1 - SINOPSE 

Asgar, o personagem central, policial de plantão, recebe uma ligação (cifrada) de celular de uma mulher, que aparenta estar no veículo de uma pessoa contra a sua vontade, rumando para um destino ignorado. 

A voz feminina indica intenso sofrimento, menciona uma menina, sozinha em sua residência. 

O “agente da lei e da ordem” entra em contato com a referida criança de “quase sete anos”, chorosa, assustada, informando que o pai gritou com a mãe e eles saíram com uma faca, deixando-a com seu irmãozinho, um bebê. 

Mais a frente, descobre, por outros policiais, que a menina está com suas roupas cobertas de sangue e seu irmão foi esquartejado. 

Após várias tentativas, consegue contato com o progenitor, que está absolutamente descontrolado. Após ouvir o cidadão, o nosso “herói”, por sua vez, tem um acesso de fúria e lança aos gritos sua opinião de que o vaticinado sequestrador, agora também assassino (com passado pela polícia) “merecia um tiro na cara”. Aciona outros membros da corporação, comunicando que o indivíduo provavelmente está armado. 

O espectador/expectador (2), como Asgar, imputa a autoria do sequestro e da odiosa morte (e, talvez, comece a imaginar outros delitos) ao pai e ex-marido. Enfim, culpado e, ainda por cima, um monstro. 

Então, inesperadamente, tudo muda... Somos confrontados com a realidade, com a verdade, com o que efetivamente aconteceu... 

E fica a pergunta do título original do filme (alterada pelos distribuidores no Brasil) SOMOS TODOS CULPADOS? 

1.2 - A QUESTÃO (ou as questões...) 

Embarcamos numa jornada que inclui a quebra de normas por Asgar que se isola numa sala (que depois destrói num acesso de ira), rejeita e despreza chamadas que não a que está controlando, pede ao parceiro que invada a casa e vasculhe correspondência e documentos do “elemento”... 

Para lá da culpa ou das culpas de Asgar, terminamos a sessão como ele, arrasados, a cabeça pesando quilos e mais quilos de má- consciência... Caímos numa bela armadilha.

Nossa subjetividade com tudo aquilo que a compõe, foi sequestrada pelo diretor e pelos roteiristas... 

SOMOS TODOS CULPADOS? O quanto da nossa subjetividade (3) pode influir na escuta dos outros?

Somos todos culpados por preconceitos, pré-julgamentos, juízos apriorísticos, julgamentos morais, crenças preconcebidas, culpas preexistentes? 

Quantos erros, injustiça, violência, denegação de justiça e absurdos podem ser cometidos por quem está incumbido de proferir decisões? 

Como é possível a compreensão? (4)

O que acontece com o personagem central da trama está além do querer? E do nosso poder e fazer? 

São tantas as perguntas possíveis... Como tantas são as emoções e pensamentos imperfeitos gerados pelo filme. 

GADAMER (2015, p.405-7) nos ajuda a entender que a interpretação não acontece por alguém inteiramente destituído de preconceitos, elementos essenciais da compreensão. Gostemos ou não, o preconceito é um elemento constitutivo da compreensão (5). Daí a ênfase especial na impossibilidade do interpretar segundo uma pretensão puramente objetiva. 

O contexto em que está inserido o intérprete, fonte de inúmeros prejulgamentos, também deve ser observado com rigor na análise da compreensão alcançada. No compreender há um senso pré-constituído, prospectivo, tributário de crenças, vivências e valores (6).

O senso é sempre um resultado e efeito de uma posição, de uma linguagem, uma percepção dos sentidos. Há sempre muitos... Superprodução e superdeterminação de sensos produzidos por excesso de combinação de lugares e meios. 

Podemos, assim, seguir aqui com GADAMER cuja tese também repousa no contexto histórico em que está aquele que interpreta, herdeiro de acontecimentos que já vem de longe, formando inevitavelmente a sua compreensão. 

A tradição histórica é essencial ao compreender e ao interpretar, pertencendo ao todo da experiência do homem no mundo. O momento histórico permanece efetivo e atuante em toda a sua compreensão (GADAMER, 2015, p.20 -33). (7) 

A história (individual ou coletiva), como demostram os acontecimentos atuais, é um importante objeto de compreensão e interpretação. Quem a compreende (ou tenta) está “no lugar de fala”, está em melhores condições de expor, compreender e interpretar. Portanto, mais aparelhado para alcançar o conhecimento efetivo, seja dos textos, do ser e do seu mundo circundante, da vida vivida (e sofrida). 

E qual é a história do nosso personagem central? O que do seu passado o acompanhava no momento em que recebe a fatídica ligação? Sabemos que o policial estava de “molho”, excluído temporariamente de sua atividade costumeira (policiamento nas ruas), até a definição de sua situação funcional e jurídico-penal.

No seu histórico pessoal, há uma grande culpa. Algo sórdido, violento, injusto, como ele reconhece ao final do filme. Em que medida isso o levou a tomar as atitudes expostas no desenrolar da trama? 

O quanto de culpa (individual, coletiva, pública) conduz atos, reflexões, interpretações e julgamentos? (8) 

O quanto de culpa o nosso personagem era capaz de suportar? O quanto de culpa somos capazes de suportar ao julgar? 

3 - NOTAS E COMENTÁRIOS DA CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA 

Para aqueles que ainda não assistiram ao filme, registramos algumas passagens da crítica especializada, sem medo de sermos “spoilers”, mas que trazem um olhar técnico e aguçado que ilustra e complementa esta singela reflexão:

“Möller consegue harmonizar, desse modo, tensão crescente e dinamismo visual – embora o foco de atenção seja centralizado no único personagem relevante em cena de corpo presente, quase sempre sentado em uma mesa usando fone de ouvido com microfone, Asger é visto de distâncias variadas e múltiplos ângulos criados na montagem. 

Na tentativa desesperada de salvar a vida de Iben, uma das personagens de quem só ouvimos a voz, Asger passa a transgredir normas de procedimento de forma deliberada. Para tanto, substitui a sala principal do serviço de emergências, onde trabalha com três ou quatro policiais, por outra, adjacente. (...). Em dado momento, Asger tem um acesso de fúria e quebra o único foco de luz do seu claustro. Por algum tempo, fica no escuro até ser iluminado de novo por uma solitária lâmpada vermelha.

À medida que o confinamento de Asger aumenta, seus antecedentes, motivações e perfil psicológico, vão sendo desvendados pouco a pouco. Sem chegar a serem explicitados de todo, revelam-se diferentes do que pareciam à primeira vista, (...).

Nos minutos finais, após Iben ter dito que ele “é um homem bom”, convencido de que fracassou na tentativa de salvar a vida dela, Asger sai da clausura. Volta por um momento ao convívio da sala de emergências e vai embora, dando por encerrado seu turno de trabalho. Sozinho, de costas no fim do corredor, antes de abrir a porta para sair ele digita um número no seu celular, sem que se saiba para quem está ligando. 

Ao adotar Culpa como título, porém, o distribuidor brasileiro atenuou o propósito declarado do diretor: “Somos todos culpados”, Möller disse. “Nós queríamos trabalhar com a percepção da culpa, do bem e do mal. (…) Temos um protagonista que contraria as regras, e normalmente quando fazem isso em filmes, eles estão sempre certos. (…) Nossa tendência é pensar que se alguém contraria as regras ele está certo. O filme também tenta questionar isso e inventar algo que é mais parecido com a vida real: e a vida real é super cinzenta.

Os principais integrantes da equipe que realizou Culpa, Möller inclusive, são graduados recentes da National Film School of Denmark (Escola Nacional de Cinema da Dinamarca). A exceção é Cedergren, ator de carreira estabelecida. (...).” (9)

Destaque-se, por fim, o olhar atento de Ana Lúcia Gosling:

“O grande barato de “Culpa” é que nos envolvemos com esses personagens sem sequer saber que aparência têm, que situação os levou ao impasse que vivem ou como são os lugares que transitam. E, no entanto, eles nos impactam, são absolutamente reais, nossa mente lhes dá forma, corpo, expressões faciais, movimentos, somente ouvindo-os pelo telefone ou imaginando-os em situações similares às que conhecemos em nossas vidas pessoais ou de espectadores mesmo” (10) 

4 - CONCLUSÃO 

Bom, deixamos mais perguntas do que respostas. Assim também, o filme... e seus atentos espectadores/expectadores que acompanharam a “live”, lançando pertinentes e doutas considerações, oferecendo questionamentos de grande profundidade. 

NOTAS

(1) Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=F7STH7eYWAw, acessado em 04/10/2020.

2 -  Espectador: A palavra espectador, do latim spectator, é um substantivo masculino e faz referência à pessoa que presencia, observa ou assiste a algo e Expectador: A palavra expectador, do latim expectatore, pode ser um substantivo masculino - quando se refere a alguém que espera que alguma coisa aconteça – ou um adjetivo. No caso do filme, parece-me que ocupamos os dois lugares simultaneamente. 

3 - No que consiste realmente a subjetividade? O que a compõe efetivamente? Mais questões, sujeitas a diversas respostas que, por sua vez, trazem em si novas indagações... Talvez, estivéssemos autorizados a dizer que consistiria no modo de ser do homem na presença do mundo. Em outras palavras, a subjetividade representaria as práticas, formas de se ver e ver o mundo em associação com grupos, fenômenos sociais, econômicos e culturais. GUATTARI, sob uma ótica determinista, a enxerga como essencialmente fabricada, modelada, recebida, consumida (GUATTARI, 1986, p.25). Mas, sob uma ótica processual e integrativa, afirma-se que compõem sua produção: “Primeiramente, o meio cultural (a família, a educação, o meio, a religião, a arte); a seguir, o consumo cultural (elementos fabricados pela indústria mediática, do cinema, etc.), gadgets ideológicos. E enfim, o conjunto dos maquinários informacionais, que forma o registro a-semiológico, a-linguístico, da subjetividade contemporânea, por funcionarem para ela ou independentemente do fato de produzirem significações” (BOURRIAND, Nicolas. 1994,82).

4 - Questão, por sinal, que precederia a todo comportamento compreensivo da subjetividade, (Gadamer, 2015, p.16). GADAMER registra que “(...) O verdadeiro problema da compreensão aparece quando o esforço de compreender um conteúdo coloca a pergunta reflexiva de como o outro chegou à sua opinião” (p-249). 

5 - O filósofo fala inclusive numa função positiva do preconceito para a compreensão. Porém, o arbítrio daquele interpreta clama pela razão como contraponto absolutamente necessário. Assim, o intérprete há de ter consciência de suas pré-compreensões, para, a partir disso, buscar a verdade e o conhecimento ( p.413-420). A pré-compreensão, condição da compreensão, remete a uma racionalidade apoiada em alguns valores de um senso constituído anteriormente. 

6 - Mas fica a advertência de GADAMER ao intérprete, àquele que busca (ou deveria buscar) o conhecer, a verdade: “(...) A função do pregador moral, nas vestes de investigador, tem algo de absurdo”. Absurdo, contudo, que assola o policial Asger e, certamente, os expectadores do filme. Na vida real, são tantos os exemplos, inclusive recentes... 

7 - “ (...)o modo como experimentamos uns aos outros, como experimentamos as tradições históricas, as ocorrências naturais de nossa existência e de nosso mundo, é isso que forma um universo verdadeiramente hermenêutico. Nele não estamos encerrados como entre barreiras intransponíveis; ao contrário, estamos sempre abertos para o mundo” ( GADAMER, 2015, p.32).

8 - O quanto a FALTA do sentimento de culpa gera, já sabemos. A experiência histórica está repleta de exemplos. Daí surge outra formulação, o quanto de memória histórica pode persistir nos indivíduos, grupos e populações para evitar que erros, injustiças e atrocidades possam ser repetidos? A ver o que se passa na Europa com a escalada da extrema direita, inclusive nazista e fascista... E o que falar de certos países da América Latina, flertando descaradamente com o autoritarismo, olvidando sua história mais recente?

9 - Disponível no link https://www.metropolis.com/entretenimento/cinema/critica-culpa-passa-peloponto-de-vista-de-um-unico-personagem, consultado em 15/09/2020.

10 - Gosling, Ana Lúcia. ‘Sobre como o filme “Culpa” nos subtrai imagens e como as preenchemos com nossa angústia’, disponível no link http://artecult.com/2019-culpa/ , consultado em 15/09/2020.

BIBLIOGRAFIA 

BOURRIAND, Nicolas. Le Paradigme Esthetique. Montrovil: Association Chimères, Chimères 21, 1994; 

ECO, Umberto. Interpretação e Superinterpretação. São Paulo. Martins Fontes. 2012;

DELEUZE, Giles. A Quoi Reconnait-on Le Structuralisme, in Histoire de la Philosophie VIII, sob a direção de François Châtelet. Paris, Librarie Hachette, 2000;

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método. Petrópolis. Editora Vozes.15ª. edição;

GOSLING, Ana Lúcia. Sobre como o filme “Culpa” nos subtrai imagens e como as preenchemos com nossa angústia. Disponível no link http://artecult.com/2019-culpa/, consultado em 15/09/2020.

GUATTARI, Félix. Revolução Molecular. São Paulo. Brasiliense. 1985;

LUÑO, Antonio Enrique Pérez. Derechos Humanos , Estado de Derecho y Constituición. Madrid. Tecnos. 2010, 10ª.edição;

SANCHÍS, Luis Prieto. Ideologia e interpretación jurídica. Madrid: Tecnos, 1993.

https://www.metropolis.com/entretenimento/cinema/critica-culpa-passa-peloponto-de-vista-de-um-unico-personagem , consultado em 15/09/2020.

Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=F7STH7eYWAw , consultado em 04/10/2020. < VOLTAR