10 de agosto de 2021 . 17:11

Em live, Milton Cunha e Selminha Sorriso abordam importância do Carnaval

“A cultura do Carnaval é a da empregabilidade e subsistência de muitas famílias. Somos pessoas que trabalham em prol da nossa maior identidade cultural, que é o Carnaval.” A fala é de um dos símbolos do sambódromo carioca Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor. Ao lado do carnavalesco Milton Cunha, ela participou, nesta segunda-feira (9), da live “Carnaval, patrimônio cultural do RJ: arte e cultura”, promovida pelo Centro Cultural do TRT-1, em parceria com a AMATRA1 e a Associação de Passistas Ciro do Agogô. Os convidados falaram da importância da festa, especialmente para o estado do Rio, e também dos desafios enfrentados pelas escolas de samba na pandemia.

A 2ª vice-presidente da AMATRA1, Adriana Leandro, o diretor de aposentados e pensionistas da entidade, Jorge Lopes, e a diretora do Centro Cultural, desembargadora Ana Maria Moraes, participaram do encontro com perguntas aos convidados. “Tenho o imenso prazer de iniciar a nossa série de lives homenageando a maior festa popular do planeta: o Carnaval. Pode até ser chamada de ‘festa pagã’, mas é de respeito, porque é uma festa que agrega, onde o preconceito não existe”, afirmou Ana Maria.

Milton, que é mestre, doutor e pós-doutor no tema pela UFRJ, explicou que a classificação de “festa pagã” atribuída ao Carnaval é uma das acusações dos críticos para justificar o desprezo ao que a festa representa.

“Desde que o homem se juntou em sociedade, lá na pré-história, precisa-se da celebração. Sempre que a colheita acabava, as pessoas celebravam. Então, essa acusação de ‘festa pagã’ é uma bobagem. Temos a celebração carnavalizada desde a pré-história. Com o passar dos anos, a celebração foi ganhando ares de festa popular. Devolvemos essa acusação com a seguinte resposta: a sociedade não sobreviverá apenas com festas religiosas; tem que existir as festas pagãs, com muito orgulho”, afirmou.

Segundo o especialista, a existência do menosprezo pela negritude e pelo povo pobre da periferia da cidade é outro fator para se compreender a relevância do Carnaval para a realidade carioca e fluminense. “Na conversa, juntamos os pilares religião, necessidade de celebração e preconceito, explicando a importância da escola de samba e da manifestação carnavalesca para a cidade do Rio.”

Para Selminha Sorriso, porta-bandeiras há mais de três décadas - cerca de 25 anos só na Beija-Flor -, “a escola de samba é lugar de fala do povo preto, das mulheres, dos gays”. “Essa é a nossa história e eu sou muito feliz em fazer parte disso”, completou. 

Primeiro sargento do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio e orientadora educacional voluntária na agremiação de Nilópolis, na Baixada Fluminense, Selminha destaca que o Carnaval é um assunto sério para os envolvidos em todas as etapas do espetáculo.

A juíza Adriana Leandro citou a Associação de Passistas Ciro do Agogô, parceira na live, para exemplificar a profissionalização da festa e a união dos diferentes segmentos para a abertura de postos de trabalho. 

“Cada vez mais, a profissão ‘Carnaval’ abre novas frentes. O Milton, por exemplo, é cenógrafo, coreógrafo, carnavalesco, professor. A Selminha atua como sargento do Corpo de Bombeiros e também está à frente dos ensinamentos na escola de samba, formando as futuras porta-bandeiras e profissionalizando. O Carnaval, há tempos, deixou de ser uma reunião pequena para ser uma grande máquina que movimenta empregos direta e indiretamente”, disse.

Por ser uma importante manifestação cultural espalhada pelo mundo todo, é preciso perpetuar a cultura do samba, destacou Jorge Lopes, que acompanha os festejos desde a década de 1960. 

“Na cidade do Rio, tem diminuído a afluência de pessoas interessadas às quadras. Antigamente, isso era diferente. Minha sugestão é que nas escolas públicas tivessem aulas de percussão de samba, com instrumentos como tamborim e cuíca, e de criação de sambas. Aprende-se desde pequeno, e criança tem mais facilidade porque tem liberdade, atua com o lúdico”, afirmou o magistrado aposentado.

Carnaval e pandemia

O período da pandemia da Covid-19 foi um grande desafio para os integrantes das agremiações, contou Selminha. A realidade das comunidades, assim como em todos os cantos do país, tem sido dolorida devido às diversas vidas perdidas para a doença. “Além disso, nossos amigos passaram necessidades por não terem trabalho, uma base e um futuro em vista, porque vivemos da cultura, e a cultura foi muito atingida”, disse.

Ela conta que as escolas se mantiveram vivas por meio virtual, driblando a distância e matando as saudades do samba. Frequentemente, os integrantes se encontram nos grupos das redes sociais e chamadas em vídeo.

“Na pandemia, sofremos muito porque vivemos em comunidade, em congraça, nos abraçamos e não sabíamos o que é viver isolado. O samba não separa, mas une, e é sinônimo de família, de amigo, de alegria.” 

Os participantes da live também falaram sobre a possível realização do Carnaval em 2022. Devido à crise e à necessidade do distanciamento social, o evento deste ano foi cancelado, e a Prefeitura do Rio ainda estuda a possibilidade de colocar o desfile na Marquês de Sapucaí.

Segundo Milton Cunha, o Carnaval, por acontecer em praça pública, é fundamentalmente composto de aglomeração - o que ainda não é indicado pelas autoridades de saúde. “Teremos que chegar em um índice de vacinação e controle bem grande. E, por enquanto, só nostradamus pode dizer se haverá Carnaval”, brincou. 

Cunha afirmou que as escolas de samba estão voltando às atividades de forma gradual, respeitando os protocolos indicados para preservar a saúde de todos. “Reabriram os barracões com segurança, chamaram os profissionais que já estão vacinados e começaram a desmontar as alegorias. Achamos que as fantasias vão estar com protótipos prontos em setembro ou outubro. A partir daí, começa a reprodução, que envolve mais gente. Mas ainda é preciso aguardar.” 

Veja a live na íntegra:
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