Notícias

Artigo de Noemia Porto no Estadão: Entre a escravidão e a ditadura, o que há de novo no Brasil?

Artigo de Noemia Porto no Estadão: Entre a escravidão e a ditadura, o que há de novo no Brasil?
A presidente da Anamatra, Noemia Porto, aborda recentes declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro, sobre trabalho escravo e ditadura, que “banalizam a violência e desprezam suas vítimas”,  em artigo publicado nesta quarta-feira (7), em O Estado de São Paulo.

[caption id="attachment_25615" align="aligncenter" width="525"] Noemia Porto publicou artigo no Estadão nesta quarta-feira (7)[/caption]

“Deve ser considerada uma tradição inaceitável a prática de esquecer, apagando, como se não tivessem existido, assassinatos e explorações. Sem expurgar o passado, não há reconciliação possível.” 

Leia mais: Leia mais: Corregedoria do TRT-1 decide por compartilhamento triplo de juízes
Programa Trabalho, Justiça e Cidadania vai atender mais quatro cidades

Para Noemia Porto, é importante saber e lembrar a cruel realidade imposta pela ditadura e pela escravidão — que, com novas formas, ainda é presente na realidade dos brasileiros.

“Construir o que entendemos como democracia passa necessariamente por uma formulação identitária que reclama o direito à memória e a devida apuração de transgressões contra os direitos humanos, sejam as que ocorreram nos porões da ditadura, sejam as que atingem física e moralmente os incontáveis trabalhadores brasileiros, no campo e nas cidades”, afirmou.

Segundo a presidente da Anamatra, as afirmações do presidente de desprezo às vítimas de violência deixam a população “incrédula” e “estarrecida”. “Submersos numa verdadeira distopia, como cidadãos, talvez ainda não tenhamos suficientemente percebido que a indignação é um sentimento, no mínimo, prudente.”

Leia o artigo na íntegra:

Entre a escravidão e a ditadura, o que há de novo no Brasil?

A escravidão moderna atinge 40 milhões de pessoas no mundo e o Brasil é o campeão na América Latina. A escravidão persiste, ainda que sob outras formas. O conceito de escravidão moderna abrange, não apenas no Brasil, um conjunto de elementos jurídicos específicos, incluindo trabalho forçado, servidão por dívida, casamento forçado, tráfico de seres humanos, escravidão e práticas semelhantes à escravidão.

Essa condição de indignidade ainda faz parte do cenário nacional e o Brasil tem compromisso internacional para a eliminação de todas essas práticas.

O país vivenciou entre 1.º de abril de 1964 e 15 de março de 1985 um longo período de ditadura militar, marcado pelo autoritarismo, durante o qual se verificaram desaparecimentos forçados, sequestros, perseguições, assassinatos e outras práticas contrárias a uma perspectiva de respeito ao primado dos direitos humanos.

Os crimes cometidos, a pretexto de salvaguarda da segurança nacional, não foram suficientemente investigados, contabilizados e tampouco reparadas integralmente as vítimas.

O Brasil sofreu condenação internacional na Corte Interamericana no ‘Caso Herzog’, por cometimento de crime contra a humanidade não devidamente apurado.

Entre a escravidão e a ditadura, estão as marcas da crueldade e do desprezo à pessoa humana. Mas, o que há de novo?

Nos últimos dias, a sociedade brasileira assiste, às vezes incrédula, por vezes anestesiada, e em diversas oportunidades estarrecida, declarações do Presidente da República, Jair Bolsonaro, que banalizam a violência e desprezam suas vítimas.

Submersos numa verdadeira distopia, como cidadãos, talvez ainda não tenhamos suficientemente percebido que a indignação é um sentimento, no mínimo, prudente.

Construir o que entendemos como democracia passa necessariamente por uma formulação identitária que reclama o direito à memória e a devida apuração de transgressões contra os direitos humanos, sejam as que ocorreram nos porões da ditadura, sejam as que atingem física e moralmente os incontáveis trabalhadores brasileiros, no campo e nas cidades.

Deve ser percebido como um problema o uso abusivo da ideia do tempo como saneador – ‘se houve ditadura isso já passou’ ou ‘hoje em dia não se pratica mais o exercício de propriedade sobre outra pessoa’ –, em relação a um passado repleto de violações a direitos humanos.

Na realidade, deve ser considerada uma tradição inaceitável a prática de esquecer, apagando, como se não tivessem existido, assassinatos e explorações. Sem expurgar o passado, não há reconciliação possível.

O exercício de memória, o respeito às vítimas, o desprezo à violência e à crueldade e um mínimo de empatia dizem muito sobre uma sociedade que se humaniza e sobre o tipo de futuro que se pretende construir. ‘Ditadura Nunca Mais’ e ‘Escravo Nem Pensar’ são ‘slogans’ ou palavras de ordem que incrivelmente precisam ser (re)afirmados, como âncoras para uma certeza que não mais possuímos.
We use cookies

We use cookies on our website. Some of them are essential for the operation of the site, while others help us to improve this site and the user experience (tracking cookies). You can decide for yourself whether you want to allow cookies or not. Please note that if you reject them, you may not be able to use all the functionalities of the site.