Exibição de ‘Cuidadoras’ reuniu magistradas, pesquisadoras e protagonistas da obra em discussão sobre trabalho não remunerado, saúde mental, desigualdade de gênero e redes de apoio para mulheres que assistem familiares dependentes
A exibição do documentário “Cuidadoras” motivou, na quinta-feira (9), um debate sobre saúde mental, desigualdade de gênero e a urgência de desenvolver novas políticas públicas para amparar quem cuida de pessoas dependentes. O evento, realizado pela Ouvidoria da Mulher e pelo Subcomitê Regional de Equidade de Raça, Gênero e Diversidade do TRT-1, reuniu magistradas e a equipe criativa do filme no espaço Hub Caixa, na Zona Portuária do Rio. “Todo mundo foi cuidado ou ainda vai cuidar de alguém. O que podemos fazer para que esse cuidado seja reconhecido?”, provocou a diretora do documentário, Fernanda Berlinck.
A ouvidora da Mulher do TRT-1, a desembargadora Carina Bicalho, destacou a importância de ampliar a escuta da sociedade sobre temas relacionados ao cuidado. Segundo ela, o evento contribuiu para a construção de políticas públicas judiciais e para o desenvolvimento de ações estatais para valorizar o trabalho de cuidado, exercido predominantemente por mulheres — em grande parte, sem remuneração. “Nós elaboramos um evento conjunto para ‘sair do Tribunal’, escutar a sociedade sobre trabalho, cuidado, exaustão, afeto, e problematizar esse tema tão importante”, disse.
O documentário acompanha histórias de mulheres que cuidam de familiares com questões de saúde mental. De acordo com ela, o cuidado atravessa diferentes realidades, mas mantém um elemento comum: a responsabilidade recai, majoritariamente, sobre as mulheres. “Essas mulheres precisam ser as personagens principais do filme. Não quero mostrar os familiares de quem elas cuidam, porque, no dia a dia, essas pessoas já são protagonistas”, afirmou a diretora Fernanda Berlinck.
Ao abordar os desafios enfrentados por esse grupo, Berlinck apresentou dados que apontam a dimensão do fenômeno. Segundo informações compartilhadas durante a roda de conversa, 92,1% das mulheres brasileiras realizam trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, dedicando, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades. A diretora também observou que boa parte das brasileiras estão fora do mercado de trabalho em razão de responsabilidades ligadas ao cuidado.
Vanuza Assis, uma das protagonistas do documentário, participou do evento. Ela relatou a experiência de cuidar do marido há mais de 15 anos e, agora, também da sogra, diagnosticada com demência. Ela descreveu os impactos físicos, emocionais e financeiros acumulados ao longo dos anos e defendeu a ampliação de mecanismos de apoio para pessoas que exercem essa função sem suporte suficiente.
Vanuza afirmou que muitas cuidadoras enfrentam isolamento, adoecimento e dificuldades para conciliar as demandas da assistência familiar com a própria vida. “Quem cuida de alguém, adoece junto. Se isso acontece, a casa cai, porque essa pessoa representa o porto seguro da família”, destacou.
As discussões convergiram para um ponto comum: a necessidade de reconhecer o cuidado como tema de interesse público. Entre relatos pessoais, dados e reflexões sobre gênero e saúde mental, os participantes defenderam medidas que contemplem não apenas as pessoas atendidas pelos serviços de assistência e saúde, mas também aqueles que assumem, cotidianamente, a responsabilidade de cuidar.
Documentário coloca cuidadoras no centro da narrativa
Dirigido por Fernanda Berlinck, o documentário “Cuidadoras” apresenta as trajetórias de Vanuza, Lilia, Iolanda e Ana, mulheres que compartilham experiências relacionadas ao cuidado de familiares com questões de saúde mental. A produção acompanha os desafios enfrentados por essas mulheres e busca evidenciar como uma atividade essencial para a organização da vida em sociedade permanece, muitas vezes, invisibilizada e sem reconhecimento.
Ao evitar concentrar a narrativa nas pessoas assistidas, o filme direciona o olhar para quem desempenha diariamente o trabalho de cuidado. A obra aborda temas como sobrecarga feminina, saúde mental e a necessidade de criação de redes de apoio e políticas públicas que considerem também as condições de vida das cuidadoras.
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